segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

[fanfic #009] [capítulo #009] [U2] Ausência

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Avisos:
  • História não recomendada para crianças (temas adultos)
  • Contém sexo hétero e gay
AUSÊNCIA

CAPÍTULO 9

Bono estava deitado em cima de Edge, cobrindo-o com milhares de beijos.
— Eu te amo. - ele repetia, sem parar - Eu te amo, eu te amo...
Edge o segurou, sorrindo, ao mesmo tempo feliz e confuso.
— O que deu em você? Faz tempo que não te vejo assim.
Mas ele percebeu que havia um toque de tristeza nos olhos de Bono, e deixou de sorrir. Bono se afastou e se deitou ao seu lado.
— Aconteceram algumas coisas.
— Que coisas?
— Coisas... Que envolvem a Iris.
Edge suspirou.
— Vocês voltaram a se encontrar?
— Não. Quero dizer, sim. Mas não aconteceu nada. - ele hesitou - Ela não quis.
— Oh, bom saber que um de vocês tem um pouco de juízo.
— Edge, eu... Eu tomei uma decisão. Foi por isso que quis te ver, hoje. - Edge permaneceu em silêncio, então Bono prosseguiu - Aconteceram muitas coisas nesses últimos meses, coisas... Ruins. E tudo começou depois de eu ter conhecido a Iris. A forma que eu a conheci... Foi tudo errado, desde o início. Eu acho... Eu acho que tudo o que acontece na nossa vida serve para nos ensinar alguma coisa, passar uma mensagem. E eu acho que a mensagem que os últimos meses deixaram foi muito clara.
— Onde você está querendo chegar?
— Eu... Eu decidi que vou mudar. A partir de hoje, não vou mais ter relacionamentos extraconjugais. A partir de hoje, eu farei valer os votos de fidelidade que fiz à Ali, e que nunca deveria ter rompido.
Edge ficou alguns instantes olhando para ele, em silêncio.
— Eu acho - Edge disse, afinal - que essa decisão também inclui... Nós, não é?
— Sim.
— Entendo. - ele suspirou e se apoiou na cabeceira da cama, acendendo um cigarro - Tudo bem. Não é como se eu nunca tivesse pensado que isso podia acontecer.
— Eu amo muito você. Muito mesmo. Mas...
— Eu sei. - Edge interrompeu - Eu sei, tudo o que você vai dizer, eu já sei. E eu entendo. De verdade. Você não me deve desculpas. Eu entendo qualquer decisão que você tomar.
— Eu não quero que isso interfira na nossa amizade.
— Não irá. - ele segurou o rosto de Bono e o beijou com delicadeza - Eu juro. Não muda nada.
— Eu te amo.
— Eu também te amo.

*****

Dublin, Irlanda - Dois anos depois

Eram dez horas da manhã, quando Bono acordou com o telefone tocando sem parar. Ele estendeu a mão, sonolento, e pegou o fone.
— Hmmalô.
— Bom dia, Bono! Aqui é a Iris!
— Hmmm... Iris? - só então ele realmente acordou - Iris, aquela Iris?
— Essa mesma! - ela riu - Feliz aniversário!
Oh, é verdade, é hoje.
— Nossa, obrigado. - ele se sentou na beirada da cama e olhou ao redor. Ali já havia levantado, provavelmente há algum tempo - Não esperava que você fosse me ligar. Obrigado, estou feliz por ter lembrado.
— Como é que eu ia esquecer? Eu quis te ligar porque ontem aconteceu uma coisa, e, bem... - ela soava tímida - Eu achei que devia te contar. Mesmo fazendo tanto tempo que a gente não se fala.
— O que houve?
— Eu vou para a faculdade de música. Fui aceita na Juilliard.
Bono ficou um longo tempo em silêncio.
— Você... Foi aceita? Oh meu Deus, parabéns!
— Eu mal posso acreditar! As aulas começam em setembro, eu estou tão feliz, parece um sonho! E eu preciso te agradecer, porque... Mesmo depois de tudo o que aconteceu, o que me fez amar música foi você. Ter sido sua fã desde pequenininha... Eu sinto que temos uma espécie de conexão, sabe? - ela riu - É bobagem, eu sei. Mas eu sinto isso.
— Eu entendo. - ele sorriu - Também sinto isso.
— Muito obrigada. Por ter sido uma inspiração para mim durante tanto tempo.
— Estou muito feliz por você, Iris. De verdade. - os olhos dele se encheram de lágrimas - Queria poder estar aí com você. Estou muito orgulhoso.
Quando Ali entrou no quarto, alguns minutos depois, ele já desligara o telefone. Ela disse:
— Quem era?
— Uma fã. - ele se levantou e foi até a janela - Uma menina que eu conheci num show. Queria me desejar feliz aniversário e me contar que foi aceita na melhor faculdade de música do mundo, e que aparentemente eu tive alguma importância nisso.
— Nossa, que lindo! - Ali sorriu e o abraçou - Tenho muito orgulho da importância que você tem na vida das pessoas. Principalmente na vida de crianças assim, que conseguem ter um rumo na vida graças ao amor que sentem por você.
Ele sorriu e a beijou, demoradamente. Quando se afastaram, os dois sorriam.
— Feliz aniversário, meu amor.
— Obrigado. Eu te amo..
— Eu também te amo.

FIM

[fanfic #009] [capítulo #008] [U2] Ausência

  • História não recomendada para menores (temas adultos)
  • Contém sexo hétero e gay
AUSÊNCIA

CAPÍTULO 8

A rua em frente à escola já estava tomada por crianças quando Íris afinal saiu do prédio. Parou no alto das escadas e olhou ao redor, procurando.
Lá estava ele. Do outro lado da rua, quase na esquina, um carro preto, parado, com vidros escuros. Às vezes eram carros diferentes, mas ela aprendera a reconhecê-los. Não sabia exatamente o porquê, mas aquele carro não pertencia ali. Ela sabia, mesmo sem ver, que havia alguém naquele carro olhando para ela, esperando por ela. Sabia que, como das outras vezes, o carro esperaria ela se afastar, para então começar a segui-la, mantendo-se sempre a uma boa distância. Então ela chegaria em casa, e o carro ficaria parado na esquina da rua, sabia Deus por quanto tempo. Eventualmente, ele iria embora. Mas, se ela saísse para algum lugar, ele novamente iria atrás dela.
No início, aquilo era assustador. Mas agora, era apenas irritante. O carro nunca se aproximava, nunca a abordava. Apenas ficava ali, uma presença constante, sempre por perto.
Ela seguiu para casa, muito consciente da presença do carro atrás dela. Não era possível que o motorista achasse que ela não sabia que estava sendo seguida. Era ridiculamente óbvio. Quem quer que fosse, provavelmente não estava preocupado em se esconder.
Ao chegar em casa ela parou, a mão na maçaneta da porta. O carro passou pela casa, lentamente, e foi parar na esquina, poucos metros à frente.
Com um suspiro, ela entrou na casa, batendo a porta com força.
— Íris? - veio a voz de sua tia, da cozinha - É você?
— Sou eu, tia. O vento bateu a porta, desculpe.
Ao invés de subir para seu quarto, ela deixou a mochila no sofá da sala e foi para a garagem. Seu tio guardava as ferramentas ali. Ela pegou um martelo e voltou para a casa, indo até a cozinha. Sua tia estava fazendo um bolo, e mal olhou quando ela passou. Íris saiu pela porta lateral, que dava para uma pequena varanda com jardim, e rodeou a casa. O muro que dava para a casa de trás era baixo; ela subiu nele e pulou para o outro lado sem dificuldades.
Os filhos do vizinho estavam brincando na piscina, e olharam intrigados quando ela pulou. Mas antes que perguntassem alguma coisa, ela colocou o dedo sobre os lábios, em um sinal de silêncio.
— Shhh. Estou procurando uma coisa muito importante. Só preciso passar por aqui pra sair pelo outro lado.
As crianças balançaram a cabeça, atônitas, e permaneceram em silêncio. Íris correu pelo quintal, até sair na rua. Atravessou para a outra calçada e correu, em direção à esquina, onde aquela rua e a rua onde morava se  encontravam.
Ao se aproximar da esquina, ela viu o carro, parado no mesmo lugar de antes. Agora conseguia ver vagamente o motorista, o suficiente para saber que ele estava olhando para a frente e não a veria se aproximar.
Andando rápido, mas sem correr, ela foi até o carro e deu três batidinhas no vidro.
Ao vê-la, o motorista quase pulou do banco. Ligou o carro, e estava prestes a acelerar, quando ela pegou o martelo e bateu com toda a força no vidro, quebrando-o em pedaços.
O motorista gritou. Íris destrancou a porta por dentro, abriu-a e se sentou no banco do passageiro, martelo em mãos. O motorista era um homem de uns trinta anos, muito alto e forte, provavelmente um segurança ou algo do tipo. Ignorando os dois metros do homem contra seu um metro e meio, ela o segurou pela camisa e se aproximou, brandindo o martelo.
— Me fala agora porque você está me seguindo, ou eu arrebento sua cabeça!
O homem parecia estar em choque. Demorou alguns segundos para ser capaz de falar alguma coisa.
— Eu não estou te seguindo. Quem é você?
Como resposta, Íris bateu o martelo com toda a força contra o painel do carro, arrebentando os mostradores. O homem engoliu em seco.
— Ok, ok! Pare de destruir meu carro! - ele a empurrou, fazendo com que ela o soltasse - Você é maluca. Como sabe que eu não quero te matar ou te sequestrar?
— Você está me seguindo há dois meses, se quisesse já teria me matado. Fala logo! - ela bateu de novo com o martelo no painel do carro.
— Pare com isso! Eu sou um segurança particular. Fui contratado para te seguir e garantir que esteja segura.
— Contratado por quem?
— Não posso dizer o nome do meu cliente.
— Pois fale para o senhor seu cliente - ela o segurou pela camisa de novo - que se ele continuar me seguindo, eu não vou quebrar o carro, eu vou quebrar a cara dele!
Com isso, ela saiu do carro, furiosa, e seguiu para casa. Após alguns minutos, o carro foi embora, deixando cacos de vidro para trás.

*****

Íris bateu com força a porta do quarto, ofegante. Ainda segurava firmemente o martelo. Olhou ao redor, para o quarto cor-de-rosa, cheio de bichinhos de pelúcia, com pôsteres do U2 espalhados por todos os lados, com fotos de seus pais por todos os cantos.
Ela largou o martelo e avançou para as paredes.
Não demorou cinco minutos para que todos os pôsteres estivessem aos pedaços. Mesmo os autografados. Mesmo os pôsteres raros. Pedaços de papel espalhados por todos os lados, até que sobrassem apenas manchas de durex nas paredes.
Quando ela saiu do quarto carregando uma caixa enorme, sua tia, que agora estava na sala, olhou para ela de forma inquisitiva.
— O que é isso, menina?
— Meus discos do U2. - ela foi em direção à porta.
— E aonde você vai com isso?
— Vou vender para a loja de discos.
E com isso ela saiu.

*****

Dois dias depois:

Era sábado, e Íris estava sentada na mesa de um restaurante, tomando uma limonada e olhando distraidamente para o mar. Fazia calor, e as praias estavam lotadas. Já fazia quase cinco anos que não ia para Miami. Esquecera-se de como era bonito.
Ela viu, de canto de olho, quando alguém parou ao lado de sua mesa e ficou olhando para ela. Não precisava olhar para saber de quem se tratava.
— Bom dia, Bono. - ela se virou para ele - Também veio aproveitar a praia?
Bono olhava para ela, muito sério. Ela sorriu e voltou a beber sua limonada, mas por dentro, sentia o coração disparado. Era um milagre que não estivesse tremendo. Apesar de tudo, ela passara a vida inteira idolatrando aquele homem. E, embora não se lembrasse de nada, ela tivera um caso com ele. E, sendo totalmente sincera consigo mesma, ela tinha que admitir que ele era um homem e tanto. Aqueles olhos azuis, aquele olhar...
Ele se sentou à sua frente, e ela se obrigou a parar de pensar aquelas coisas. Pro inferno ele e seus olhos azuis e sua voz e aquele jeito irritantemente sexy. Ela tirou os óculos escuros e o encarou friamente.
— O que você está fazendo aqui? - ela disse.
— Essa pergunta é minha. O que você está fazendo aqui?
— Não é óbvio?
— Me disseram que você fugiu de casa de novo. Saiu escondida, antes do sol nascer, carregando só uma mochila - ele apontou para a mochila rosa, jogada displicentemente na cadeira ao lado - Pegou o primeiro ônibus para Miami e viajou por quatro horas até chegar aqui. Depois de tudo o que aconteceu, você ainda não aprendeu? Vai cometer os mesmos erros de novo?
— Uau, bem detalhada essa sua... Fonte. Foi aquele mesmo cara que te disse isso? Ele está me seguindo mais de longe agora?
— Não sei do que você está falando.
— Ah, não sabe? Então você também não sabe que destruí o carro do cara com um martelo?
Bono hesitou, mas por fim, suspirou e disse, balançando a cabeça:
— O que aconteceu com você? Você não é o tipo de mulher louca que sai por aí destruindo coisas e ameaçando pessoas com um martelo.
— Ah, não sou? O que você pensa que sabe sobre mim? - ela se inclinou para a frente, o sorriso sumindo de seu rosto - Eu também achava que você era um bom marido, um bom pai, e que não fosse um pedófilo que fica perseguindo meninas de quinze anos. Obviamente, eu estava enganada.
Ela viu Bono tremer ligeiramente, mas ele logo se controlou. Ela não sabia se aquilo era culpa ou raiva, mas era algo, e ela queria ver até onde ele iria.
— Por que você colocou pessoas para me seguirem? O que faz você pensar que tem esse direito?
— Eu preciso garantir que você fique a salvo! - ele bateu na mesa - Há poucos meses atrás, você foi sequestrada e quase foi morta! E ainda pergunta por que tenho pessoas vigiando você? Você devia dar graças a Deus por eu me preocupar com você!
— Não, eu não devia! Não devia, porque você não tem nenhum motivo para se preocupar comigo! Você não é nada meu, você é só um cantor de quem eu gostava quando era criança, e eu sei que você dormiu comigo mas eu nem me lembro disso!
— Fale baixo!
— Pro inferno! Você fez merda, agora aguente as consequências! Eu não devo nada pra você!
Iris se levantou, pronta para ir embora. Estava tudo dando errado, tudo. Ela não planejara aquela explosão, não planejara nada daquilo, mas não conseguia evitar. Era demais, demais. A decepção era muito grande, a raiva, a vergonha pelo que não se lembrava de ter feito. Era tudo demais para ela.
Mas, antes que ela desse dois passos, Bono estava atrás dela, segurando-a pelo braço - com firmeza, mas sem ser bruto.
— Não. Não vá embora. - ele falava muito baixo, quase sussurrando em seu ouvido - Venha comigo.
Meio hipnotizada, Íris o seguiu. Os dois saíram do restaurante e atravessaram a rua, até um hotel imponente do outro lado. Subiram direto até um quarto, onde Bono devia ter passado apenas para deixar suas coisas quando chegara em Miami - sua mala estava jogada de qualquer jeito em um canto, e de resto o quarto estava intocado.
A porta se fechou atrás deles, e um silêncio sólido se seguiu.
Os dois se olhavam fixamente. O tempo pareceu parar. O que estou fazendo? Novamente, aquilo não estava nos seus planos. Não, definitivamente, acabar sozinha com Bono em um quarto de hotel não estava nos seus planos.
— Me desculpe.
A frase, aparentemente sem contexto, quebrou qualquer que fosse o feitiço que havia caído sobre eles. Íris piscou e balançou a cabeça, confusa.
— O que?
— Me desculpe. - ele foi andando pelo quarto, sem rumo, e parou diante da janela. Apoiou-se nela e ficou olhando para fora - Eu sei que não tenho nenhum direito de me meter na sua vida. Mesmo que você não tivesse perdido a memória, o fato de termos tido algo no passado não me dá esse direito. Mas eu me sinto responsável por você. Eu... - ele suspirou, virou-se para ela - Sua mãe me escreveu uma carta. Depois de morrer.
— Minha mãe... O que?
— Ela escreveu uma carta e programou para que ela fosse entregue apenas se algo acontecesse. Eu recebi a carta há algum tempo, mas só recentemente a li. Ela... Ela falava várias coisas para mim. E me pedia para que tomasse conta de você, caso algo acontecesse com ela e com seu pai.
— Tomasse conta de mim? Por quê?
Bono deu de ombros, tentando assumir um ar indiferente.
— Por que ela era minha fã, eu acho. Porque tive muita importância na vida de vocês. O fato é, eu só li essa carta depois que... Depois que você perdeu a memória. E... Eu me senti muito culpado. Por tudo. Tudo o que fiz a você, o fato de ter abusado de você, tenha sido consensual ou não... Sendo que sua mãe me pediu para te proteger, para cuidar de você. Eu quero consertar isso, de alguma forma. Te manter a salvo é o mínimo que posso pensar em fazer. É o que eu faria por minhas... Por minhas filhas.
A última palavra saiu engasgada, e ele desviou o olhar, sentindo os olhos se encherem de lágrimas. Íris ficou olhando para ele, atônita.
— Bono, você... Você gosta de mim?
Ele olhou para ela.
— É claro que sim. Muito.
Íris se aproximou, lentamente, até parar bem próxima a ele. Então ficou na ponta dos pés e, timidamente, lhe deu um beijo no rosto.
— Eu também gosto muito de você.
E de repente, aquilo era muito mais do que ele era capaz de suportar. Sem saber como, seus lábios estavam nos dela, em um beijo superficial, mas forte. Lágrimas caíam por seu rosto, enquanto uma voz no fundo de sua mente o mandava se afastar, voz que ele deliberadamente ignorava.
Foi Iris quem se afastou primeiro. Em um segundo ela estava completamente entregue no beijo, no segundo seguinte ela o empurrava e se afastava até o outro lado do quarto.
Os dois ficaram se olhando, ofegantes e envergonhados.
— Me desculpe. - Bono disse, em um fio de voz.
— Tudo... Tudo bem. - ela gaguejou - Só não... Não fala de novo. Nunca mais.
Ele balançou a cabeça, e ela foi depressa em direção à porta. Antes de sair, se voltou uma última vez para ele.
— Não me procure de novo. Não mande ninguém atrás de mim. Saia da minha vida, e não volte nunca mais.
— Sim, eu acho que é o melhor.
— Adeus, Bono.
— Adeus.
E com isso, ela se foi.

*****

Dublin, Irlanda - dois dias depois

As meninas haviam finalmente dormido. Ali estava no quarto, lendo. Em silêncio, Bono foi até seu escritório e se trancou ali, sozinho. De dentro da gaveta trancada, ele tirou a carta que a mãe de Íris lhe escrevera. Embaixo dela, o envelope com o resultado do exame de DNA.
Como fizera dezenas de vezes nas últimas semanas, ele releu toda a carta. Depois, abriu novamente o resultado do exame. Havia alguns termos técnicos incompreensíveis, mas no final da folha, em vermelho, a linha "Resultado: o suposto pai tem no mínimo 99,99% de chance de ser o pai biológico do filho" não deixava muitas dúvidas.
Ele fechou o envelope. Não falara sobre aquilo para ninguém. Nem para Edge. Muito menos para Edge. O que ia dizer? Ah Edge, sabe aquela garota com quem transei umas cem vezes há uns meses atrás? Pois é, ela é mesmo minha filha. Que coisa engraçada é a vida, não? Milhões de garotas com quem eu poderia ter me envolvido, e fui me envolver com minha própria filha. Inclusive, ainda estou apaixonado por ela. Inclusive, eu a beijei há dois dias atrás, e teria transado com ela de novo, se ela não tivesse me mandado parar. Mesmo sabendo quem ela é, eu teria feito de novo.
Sim, ele teria feito. Se sentia horrorizado, e ao mesmo tempo não conseguia evitar o que sentia. Não conseguia parar de pensar em Íris.
Ele estava prestes a guardar novamente o exame e a carta na gaveta, quando parou. Ficou olhando para o nada, e então subitamente pegou o exame e o rasgou ao meio. E de novo, e de novo, até que restassem apenas pedacinhos indistinguíveis. Fez o mesmo com a carta, e por fim juntou todos os retalhos de papel e jogou na lareira. Acendeu o fogo e ficou vendo eles queimarem, até que só restassem cinzas.
Por fim, Bono pegou o telefone e ligou para seu chefe de segurança, que atendeu prontamente, apesar de ser mais de meia noite.
— Boa noite, senhor.
— Boa noite, Parker. Por favor, assim que amanhecer, mande cancelar a vigilância sobre Iris, ok?
— Cancelar toda a vigilância sobre ela, senhor?
— Sim. Pode liberar os rapazes. Ela está segura, a vigilância não é mais necessária.
— Sim, senhor.
Bono desligou o telefone. Foi até a lareira e apagou o fogo; dos fragmentos de papel, haviam restado somente cinzas. Ele saiu do escritório, apagando a luz atrás de si.

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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

[fanfic #009] [capítulo #007] [U2] Ausência

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AVISOS:

  • História não recomendada para menores (temas adultos)
  • Contém sexo hétero e gay

AUSÊNCIA

CAPÍTULO 7

Houve um longo e constrangedor silêncio. Bono olhava para os tios de Iris, sem expressão alguma. Se esforçou para dizer algo a respeito, mas a única coisa que saiu foi:
— Que?
Edge começou a rir. Bono olhou para ele, atônito.
— Ok. – disse Edge – De onde diabos você tirou isso?
— Pergunte para ele. – disse Mary, apontando para Bono – Ele sabe muito bem.
Bono balançou a cabeça.
— Você ficou louca? Como é que eu poderia... Do que você está falando?
— Desculpem minha esposa. – disse James, parecendo muito constrangido, e puxando Mary para perto dele – Ela tem umas ideias um pouco fantasiosas.
— Que fantasiosas o que! – ela se soltou de James e voltou a encarar Bono – A mãe de Iris sempre foi "apaixonada" por essa sua banda, e especialmente por você. Ela esteve em um show seu pouco antes de se casar, e aí nove meses depois, nasce uma menina que não tem absolutamente nada a ver nem com ela nem com o pai, mas que é a cara do tal cantor de quem ela é "fã". Só sendo muito idiota mesmo para acreditar que a Iris é filha do Rick!
— Que ideia louca, mulher. – disse Bono, impaciente – Em primeiro lugar, eu acho que me lembraria de alguém que tivesse engravidado. Em segundo lugar, ela provavelmente teria me procurado. Em terceiro lug...
Mas de repente ele parou. Ficou olhando em silêncio para Mary, mas parecia estar em outro mundo. Edge olhou para ele, intrigado.
— Bono?
— Ahm? Oh. – ele voltou a si – Eu, ahm... Olha, essa história não faz absolutamente nenhum sentido. Nós viemos até aqui para que Iris não ficasse sozinha, mas como felizmente vocês foram localizados, é melhor nós irmos. Desejo melhoras para a sua sobrinha.
Ele saiu depressa dali, seguido por Edge, que ainda parecia um pouco confuso com sua reação. Os dois entraram no carro, e Bono saiu dirigindo em uma direção qualquer. Edge estava comentando sobre o quanto a tia de Iris era louca, quando percebeu que eles não estavam indo em direção ao hotel.
— Pra onde você está indo? – ele perguntou, mas Bono continuou em silêncio, como se sequer o tivesse ouvido – Bono? Ei, Bono!
— Ahm? – ele olhou para Edge – O que?
— Para onde estamos indo?
— Oh. Para...
Ele parou de falar e continuou a dirigir, o olhar fixo em um ponto qualquer à frente.
— Bono, pare o carro. Bono! – ele teve que sacudir o braço de Bono para que ele ouvisse – Acorda! Pare o carro.
Bono obedeceu de forma automática. Parou no acostamento, em um lugar provavelmente proibido, desligou o carro, e olhou para Edge.
— O que foi? Por que paramos?
— Como, "por que"? Você está completamente fora da realidade, ia acabar batendo o carro. O que aconteceu?
— Nada. – ele respondeu, depressa demais, e voltou a olhar para um ponto qualquer à frente.
— "Nada", não. O que houve?
— Nada!
— Bono...
— Eu... – ele estava tremendo – Não é nada. É só uma... Uma ideia idiota, só isso.
— Tem a ver com o que aquela louca falou?
Bono desviou o olhar. Edge olhou para ele, incrédulo, e começou a rir.
— Bono, pelo amor de deus, você não pode ter achado, nem por um segundo...
Mas Bono encostou a cabeça no banco do carro, fechou os olhos, passou a mão pelo rosto.
— O que está havendo? – disse Edge, começando a ficar preocupado.
— Eu acho que conheci a mãe da Iris.
— O... Que?
— Eu conheci... Droga. – ele começou a rir, sem humor algum – Eu não acredito que isso está acontecendo.
— O que está acontecendo?
— Eu acho... Acho... Talvez eu tenha conhecido a mãe da Iris. E não estou falando de... De um autógrafo antes de um show.
— Como assim? Como você teria conhecido ela? Quando?
— Eu reconheci ela quando a Iris me mostrou a foto, mas não sabia de onde. Agora tenho quase certeza de que ela era uma garota que eu conheci num show, num dos nossos primeiros shows aqui, e... Merda. – ele encostou a cabeça no volante – Isso não está acontecendo.
— Calma, pelo amor de Deus. Mesmo que você tenha conhecido ela, isso não significa nada.
— Você não está entendendo? Eu transei com ela! Transei com a mãe da garota com quem eu venho dormindo há semanas! E agora a tia dela disse...
— Oh, então vamos atrás de todas as mulheres com quem você transou, porque você provavelmente tem uns duzentos filhos espalhados por aí. Você ter transado com ela não significa nada.
— Olhe as coincidências! Eu transei com ela na véspera do casamento dela, e pelo que a louca falou, a Iris nasceu nove meses depois! E ela realmente parece comigo! – ele olhou para Edge, com uma expressão de total desespero – Não é impossível.
— Você não usou camisinha?
— Eu sei lá. Provavelmente não, mas não me lembro. Eu não usava sempre, naquela época.
— Olha, ok, vamos dizer que não seja impossível. E daí? Não prova nada. Você realmente acha que se houvesse a menor possibilidade de você ser pai da Iris, a mãe dela não teria entrado em contato com você?
— Eu sei, eu sei, é improvável, mas... – ele balançou a cabeça – Meu Deus, Edge, se...
— Não fale isso. Nem cite essa possibilidade. Esquece isso, ok? Você não é o pai da Iris. Esquece isso.
— Mas e se...
— Bono. – ele segurou o braço de Bono com força – Você não é o pai da Iris.
Bono engoliu em seco, balançou a cabeça.
— Sim. Claro. Desculpe, eu só... Só fiquei um pouco...
— Eu sei. É perturbador mesmo, você ter transado com a mãe e depois com a filha. Mas agora já foi. E graças a Deus, a Iris esqueceu de tudo. Para evitar problemas, vamos fingir que nada disso aconteceu, e torcer pra ela nunca se lembrar de nada, ok?
— ... Ok.
— Promete que não vai mais pensar nenhuma besteira sobre isso?
— Prometo.
— Ótimo.

* * * * *

Bono recebia centenas de cartas todos os anos, e obviamente não lia todas. Mas nunca jogava nenhuma fora, e quando as pilhas de envelopes começaram a ocupar todos os lugares de sua casa, ele decidiu organiza-las em um arquivo improvisado em seu escritório. O que, naquele momento, era uma benção.
Demorou apenas alguns minutos para encontrar as cartas catalogadas na letra T.
As primeiras cartas que Bono encontrou eram de Iris. Ele se surpreendeu por nunca ter imaginado que ela talvez houvesse enviado alguma coisa para ele. Havia dez cartas dela, algumas escritas há muitos anos, quando ela devia ser bem pequena. Ele deu uma olhada rápida por elas, mas todas eram o típico modelo de carta de fã, falando sobre o quanto ela o amava e o quanto gostava das músicas do U2.
E logo depois das cartas de Iris, estava a carta que ele procurava. Letícia M. Tyler. A mãe de Iris.
Havia apenas uma carta dela. Bono se surpreendeu ao ver que a data era recente. Recente demais. Letícia já devia ter morrido quando ele recebeu aquela carta.
Por um momento, ele achou que se tratasse da Letícia errada. Sentou-se no sofá e abriu o envelope.
A carta não começava com um clássico "querido Bono", nem nada parecido. Começava com Letícia contando que estava morta.

Se você está lendo essa carta, significa que eu estou morta.
Me desculpe, Bono. Eu deveria ter te mandado essa carta antes, há muito tempo atrás, mas nunca tive coragem. Nesse momento, enquanto escrevo, não paro de pensar que depois vou escrever outra carta para ser enviada hoje mesmo. Mas se você está lendo isso, foi porque eu não tive coragem, e alguma coisa aconteceu.
Eu não estou esperando morrer, mas acidentes acontecem, e eu preciso tomar essa precaução. Não posso correr o menor risco de que eu morra e leve tudo embora comigo. Essa não é a primeira carta que escrevo. Costumo reescrever essa carta de tempos em tempos.
Mas você não deve estar entendendo nada, não é?
Bom, vamos lá. Você me conheceu há quinze anos atrás. Duvido que você se lembre, mas eu era uma garota em um dos seus shows, muito antes de você ser famoso. Eu gostei de você e você gostou de mim. Nós tivemos uma noite divertida juntos, mas foi só, e logo depois eu me casei.
Eu tenho acompanhado você desde então. Cada passo seu. Me tornei uma fã, mas não apenas isso. Eu fui uma fã antes de você sonhar em ter fãs, eu me apaixonei pelo homem maravilhoso que você era quando você sequer sabia quem você realmente era. No dia em que ficamos juntos, eu te disse que tinha certeza de que vocês seriam grandes. Eu sentia essa grandeza dentro de você, mais forte do que qualquer outra coisa que eu já tinha sentido.
Eu tenho muito orgulho de quem você se tornou.
Eu poderia ficar aqui o dia inteiro, falando aquelas coisas que todos os fãs falam. Só que essa carta não é uma carta de fã, Bono. E eu espero que você a leia um dia, porque eu tenho uma coisa muito importante para te contar.
Nove meses depois de me casar, eu tive uma filha. Nove meses depois da noite que passamos juntos.
Eu não tenho a menor ideia de quem é o pai da minha filha, se é você ou meu marido.
Minha filha não se parece com ninguém da família, e eu a acho parecida com você, mas isso não significa nada. O que mais me chama a atenção nela são os olhos. Ela tem os seus olhos, Bono. Mas claro, isso também não quer dizer nada.
Eu queria ter te dito isso há muito tempo, mas nunca tive coragem. Sempre achei que você ia achar que eu era só uma fã louca tentando te dar um golpe.
Meu marido sabe sobre essa história toda. Foi difícil na época, mas depois ele entendeu e me perdoou. Ele nunca quis saber se era ou não o pai biológico da Iris – Iris é o nome da minha filha – e ele a ama independentemente de qualquer coisa. Eu não quero que você a assuma. Mas acho que você tem o direito de saber que talvez tenha uma filha. Ela vai fazer quinze anos mês que vem, e é uma menina linda. Ela não sabe que talvez seja sua filha, mas também é uma grande fã sua. Nós já fomos a muitos shows do U2, e você já a viu muitas vezes. Eu gostaria muito que um dia vocês se encontrassem sabendo de toda a verdade. Ela ficaria tão feliz.
Eu estou morta agora, e Rick, meu marido, deve estar sofrendo muito por isso, e cuidando sozinho da nossa filha. Eu te peço que não o procure por enquanto, pois não sei que reação ele teria. Porém, talvez ele tenha morrido comigo, afinal estamos sempre juntos. Se esse for o caso, você está livre para procurar a Iris quando quiser e contar toda a verdade a ela. Existem formas, hoje, de saber quem é o pai biológico de alguém. Fique à vontade para fazer qualquer teste que achar necessário, se a Iris estiver de acordo. Eu gostaria de ter tido coragem para ter feito esse teste, mas confesso que tive medo do resultado. Não sei se meu medo maior é descobrir que ela não é sua filha, ou que não é filha do Rick.
Espero que você não me odeie por ter escondido a verdade durante esse tempo todo. Queria ter sido um pouco mais corajosa.
Eu te amo, Bono. Te amei até o último momento.
Com amor, Letícia.

* * * * *

Quinze dias depois:

Iris estava sentada em um banco do parque, em um lugar escondido do resto do mundo, chorando.
Bono estava muito longe para que ela o visse, e ele se sentia um pouco culpado por invadir a privacidade dela dessa forma. Mas não conseguia parar de olhar. Ela parecia uma criancinha, sentada de lado no banco, as pernas abraçadas contra o peito, o rosto apoiado nos joelhos. Ele quase podia sentir os soluços dela, sua tristeza. Ainda não se recuperara da notícia da morte dos pais. Ou de ter perdido um ano da vida. Teria ela se lembrado de algo? Ele se recostou no banco do carro, com um longo suspiro.
Havia tanta coisa que podia fazer. Podia simplesmente ir lá e se sentar ao lado dela, como um ídolo que faz um agrado para um fã. Podia mostrar a carta que a mãe dela lhe escrevera, se oferecer para fazer um teste de DNA. Íris explodiria de felicidade se soubesse que existia a possibilidade de ser sua filha.
Mas o que diabos ele faria se a droga do teste desse positivo? Se descobrisse que andara transando com sua própria filha? Ele não sabia dizer, naquele momento, se era melhor conviver com a dúvida ou com a certeza. Podia simplesmente ignorar aquilo tudo, se convencer de que era impossível que ela fosse sua filha, e seguir adiante com sua vida. Se um dia Iris se lembrasse do que acontecera, e se fosse procura-lo... Bom, ele lidaria com aquilo.
Sim, ele lidaria com aquilo. Aquela história toda era uma loucura, afinal de contas. Ela não era sua filha. Aquilo era um total absurdo.

* * * * *

Três meses depois

Eles estavam no estúdio, ensaiando uma nova música. Bono estava sentado ao lado de Edge, Adam e Larry, rindo de algo que um deles dissera, quando seu celular tocou. Atendeu distraidamente, mas conforme a pessoa do outro lado da linha falava, ele ficava cada vez mais sério. Seu rosto assumiu uma palidez preocupante.
— O que houve? – Edge perguntou, quando ele desligou.
Bono olhou para ele, hesitando, e então se levantou.
— Desculpem, eu preciso ir. Eu... Houve um problema. Continuem sem mim.
— Algo sério? – disse Larry, também preocupado.
— Não, não... Mas precisam de mim em outro lugar. Não se preocupem, não é nada importante.
Ele saiu quase correndo, mas quando chegou ao estacionamento, Edge o alcançou.
— Bono, espera. – ele o segurou – O que houve? Você nos deixou preocupados.
— Nada. – ele hesitou novamente, e olhou em volta – A Iris sumiu.
— O que? Como assim?
— Ela não voltou da escola hoje. Foi vista entrando em um carro com um homem desconhecido, pouco depois do fim da aula, e não apareceu mais. Ninguém sabe onde ela está. O detetive acredita que ela foi sequestrada.
— Detet... – ele parou – Você está brincando.
— Sim, eu coloquei um detetive atrás dela, ok? Só pra... Ter certeza de que ela estava bem. E graças a isso eu tenho chance de encontrá-la. Eu tenho que ir.
— Mas você tem ideia de onde ela pode estar?
— Sim. – ele foi em direção ao carro – Só espero que ela esteja bem.

* * * * *

Enquanto isso, Iris não estava nada bem.
Estava com as mãos amarradas atrás das costas, as pernas firmemente presas por cordas, e a boca tapada por fita adesiva. O homem estranho que a sequestrara estava conversando com outros homens estranhos do lado de fora do quarto onde a deixara. Ela se contorcia e tentava se soltar, quase caindo da cama em que estava deitada, mas era inútil.
Quando o homem finalmente entrou no quarto, fechando a porta atrás de si, ela se encolheu. Ele a olhou com um sorriso assustador.
— Iris, Iris, querida. – ele se sentou ao lado dela na cama, e passou a mão por sua perna – Que trabalho você me deu. Eu demorei pra te achar.
Ela não tinha a menor ideia do que ele estava falando. Nunca vira aquele homem na vida. Mas já dissera aquilo dezenas de vezes, antes de ele tampar sua boca com fita adesiva, e fora inútil.
— Vamos, chega desse joguinho. – ele disse, ficando muito sério, o que era ainda mais assustador – Onde está o meu dinheiro?
Iris arregalou os olhos e sacudiu a cabeça. Do que ele estava falando? Que dinheiro?
Como se lesse seus pensamentos, ele disse:
— Sua dívida hoje está em quinze mil dólares, meu amor. – ela quase engasgou – Você pode me pagar isso agora, e nós dois saímos daqui muito felizes. Ou você pode voltar a trabalhar para mim, até pagar o que me deve. Ou... – ele se inclinou e tocou no rosto dela, segurando-a com um excesso de delicadeza – Eu posso quebrar esse seu pescocinho lindo e te jogar no rio, pra mostrar pra todo mundo o que acontece com quem não paga o que me deve.
Lágrimas brotaram nos olhos dela, e ela tentou se afastar, mas ele a agarrou dolorosamente pelos cabelos e a puxou para si, até seus rostos quase se tocarem.
— Eu sei que você não tem quinze mil dólares. Então, acho que você só tem duas opções. O que vai ser?
Ela murmurou contra a fita adesiva, tentando falar. Ele suspirou e arrancou a fita de sua boca. Iris deu um gritinho de dor, e respirou, aliviada.
— Eu não sei do que você está falando. – ela disse muito rápido, com medo de que ele tapasse sua boca novamente – Eu sofri um acidente há alguns meses e perdi parte da memória. Não tenho a menor ideia de quem é você, ou de porquê te devo dinheiro, nem sei de que trabalho está falando. Pelo amor de deus, não me mate. – sua voz se elevava, ela começava a ficar histérica – Eu faço qualquer coisa, por favor. Por favor!
Ele a observou atentamente, enquanto ela continuava a repetir “por favor” sem parar, aos prantos. Por fim, disse:
— Eu não estou nem aí se você está falando a verdade ou não. O único jeito de você não morrer é pagando o que me deve ou trabalhando para mim.
— Trabalhando com o que? Eu não sei fazer nada, sou só uma estudante do ensino médio!
O homem riu alto.
— A única coisa que você vai ter que fazer nesse emprego é abrir as pernas, querida. Não precisa de dom para isso. Se bem que, pelo que eu soube, esse dom você tem. – ele segurou o rosto dela novamente, e seus olhos tinham um brilho assustador – Você era a rainha do puteiro, me deu um lucro e tanto. Tenho certeza de que pode fazer tanto sucesso quanto antes.
Iris ficou olhando para ele, sem entender.
— Você está dizendo que eu...? – ela não conseguiu concluir a pergunta – Você está mentindo.
Ele riu de novo, e se levantou da cama.
— Você realmente não se lembra? – ele parecia estar achando aquilo divertidíssimo – Isso é fantástico! Você acha que ainda é uma menininha virgem? Você trabalhou como puta pra mim na Europa, minha querida, até resolver fugir. Eu tive trabalho pra te encontrar e não vou cometer o mesmo erro novamente. – ele a segurou novamente pelos cabelos, fazendo ela gritar – Não vou tirar os olhos de você.
Nessa hora bateram na porta, e ele soltou Iris com impaciência. Foi até a porta e trocou palavras breves com o homem do outro lado.
— Eu preciso sair. – ele disse, voltando-se para Iris – Mas vou voltar logo. É bom ficar bem quietinha. Se alguém disser que você gritou, quando eu voltar eu corto sua língua.
Pelo seu tom, Iris não duvidou por nenhum momento que ele estivesse falando sério. O homem saiu e trancou a porta, deixando Iris presa no quarto.

* * * * *

Sem querer, Iris dormira. Quando acordou, demorou um pouco para se localizar. Não sabia quanto tempo havia se passado. Seu sequestrador estava bem à sua frente, olhando para ela. Quando o viu, ela se encolheu, aterrorizada.
— Eu trouxe comida. – ele indicou vagamente uma mesa ao lado, e Iris viu uma embalagem de viagem do McDonald’s e refrigerante. Percebeu nesse momento que estava morrendo de fome e de sede – Eu te deixo comer, se você for uma menina boazinha.
Ela não tinha certeza do que ele queria dizer com ser uma menina boazinha, então apenas balançou a cabeça, concordando. Só queria sair dali. Queria que aquele sonho ruim e estranho acabasse. Tinha certeza de que tudo o que aquele homem falara sobre ela era mentira. Não era possível que qualquer coisa daquilo realmente tivesse acontecido.
O homem se aproximou dela com uma faca nas mãos, e ela se encolheu.
— Eu vou te soltar. – ele disse – Se você pensar em tentar fugir, ou fizer qualquer idiotice, eu corto seu pescoço. Entendeu?
Novamente, ela apenas balançou a cabeça. Ele se inclinou para ela e cortou as cordas que prendiam seus tornozelos. Em seguida, cortou as cordas de seus pulsos. Iris suspirou, aliviada, e esfregou os braços e as pernas, recuperando a circulação. Todo o seu corpo doía.
Mas antes que pudesse começar a se sentir melhor, o homem se aproximou novamente. Iris não era uma garota experiente – não que se lembrasse – e nunca passara por uma situação parecida. Mas assim que olhou para ele, ela sabia o que significava aquele olhar, aquela expressão. Seu instinto lhe dizia, e ela não gostava nem um pouco daquilo.
Aquele homem a olhava como se quisesse devorá-la.
Quando ela tentou se afastar, ele a segurou firmemente pelos cabelos.
— O que eu te disse sobre fugir? – ele encostou a faca no pescoço dela – Não me obrigue a te matar antes de te comer, meu anjo. – ela se encolheu, e ele sorriu diante do olhar de pavor submisso dela – Eu mereço provar essa coisinha linda pelo menos uma vez, não é mesmo?
Ele avançou para cima dela, e ela queria gritar, mas o pavor lhe travava a garganta.

* * * * *

Algumas horas depois

Quando Bono estacionou em frente à casa, o que se desenrolava ali era um caos total.
Pelo menos oito carros de polícia estavam parados na rua, com as sirenes ligadas, e havia um número igualmente grande de ambulâncias. Pessoas de uniforme andavam apressadas de um lado para o outro. Uma pequena multidão de curiosos tentava enxergar o que estava acontecendo, atrás do cordão de isolamento.
Não havia a menor possibilidade de que ele fosse conseguir aparecer ali sem ser notado, então continuou no carro, e logo um dos homens que estava trabalhando para ele entrou, sentando-se no banco do carona.
— Encontraram ela? – foi a primeira coisa que Bono perguntou, sem preocupar em esconder a ansiedade na voz.
— Não. – o detetive disse, após um instante de hesitação – Ninguém sabe o que aconteceu aqui, mas ela sumiu. Quando a polícia chegou, só havia cinco corpos na casa, todos de homens pertencentes a uma quadrilha que faz tráfico de mulheres. A maioria deles foi baleada, mas um deles foi esfaqueado dezenas de vezes. Tem sangue pela casa toda, parece um filme de terror.
Aquilo não era o que Bono esperava, e ele ficou olhando para o homem, boquiaberto.
— E a Iris...
— Desapareceu como fumaça. Mas eles acreditam que ela esteve na casa. Havia cordas e algemas em um dos quartos, indicando que uma pessoa tinha sido mantida presa. Mas não sabem ainda o que aconteceu, para onde ela foi, ou quem matou essas pessoas. Pode ter havido um confronto entre gangues, e o lado vencedor pode ter levado ela embora.
— E vocês não viram nada?
— Não chegamos a tempo. Quando chegamos aqui, todos estavam mortos. A única coisa que pudemos fazer foi chamar a polícia.

* * * * *

Aquilo parecia um pesadelo sem fim. Enquanto dirigia sozinho pela estrada, em direção ao hotel em que passaria a noite, Bono se perguntava se um dia voltaria a ter alguma paz. A única coisa que queria era que, de uma forma ou de outra, Iris estivesse viva. Viva, bem, e que fosse encontrada. Apenas isso, e era isso que repetia em uma oração ininterrupta.
Até que viu algo que o fez parar o carro, numa freada brusca.
Bem à sua frente, no meio da estrada deserta e escura, uma menina caminhava sozinha. Por um momento ele achou que estivesse tendo alucinações, mas logo se convenceu que era bem real. Era Iris, à sua frente.
— Iris! – ele chamou, saindo do carro – Iris!
Ela se voltou, assustada. Os faróis do carro a iluminavam. Havia manchas vermelhas no rosto dela, nos braços, na blusa. Manchas que se pareciam assustadoramente com sangue. Ela abriu a boca quando o viu, incrédula.
— Bono!?
Ele foi depressa até ela e a abraçou, sentindo-se aliviado. A apertou com força contra si, sem se importar com o sangue ainda úmido no corpo dela.
— A polícia está te procurando. – ele disse – Está todo mundo louco atrás de você. Nós...
— Não me leve pra polícia! – ela disse, em desespero – Por favor, por favor, não me leve pra eles, nem pros meus tios, por favor...
Aquele desespero dela o surpreendeu, mas ele apenas balançou a cabeça, concordando.
— Ok, ok, nada de polícia, nada de tios. Mas você não pode ficar vagando desse jeito pela estrada, é muito perigoso. Tem algum lugar para onde você quer ir?
— Não. – ela balançou a cabeça – Não sei para onde ir, não sei o que fazer.
— Venha comigo, então. Eu estou sozinho em um hotel perto daqui. Ninguém vai saber que você está lá. Você pode ficar lá comigo pelo tempo que precisar.
Ela não hesitou nem por um segundo. Pelo contrário, pareceu maravilhada com aquela possibilidade.
— Ok. – ela disse, com firmeza – Me leve com você.

* * * * *

Ela passou a noite e metade da manhã em silêncio, perdida dentro de seus próprios pensamentos. Bono conseguiu roupas limpas para ela, que ela vestiu depois de tomar um longo banho, para tirar o sangue de seu corpo. Ele fizera algumas perguntas, mas ela se recusara a responder, e ele não insistiu. Deixou que ela dormisse na única cama do quarto, enquanto ele se acomodou no pequeno sofá. O sono dela foi quieto, profundo, mas ele não conseguiu fechar os olhos a noite inteira.
Somente no dia seguinte, Iris falou sobre o que acontecera.
Eles haviam acabado de tomar o café da manhã, no quarto. Antes que Bono pudesse pensar em como tentar fazê-la falar, ela disse:
— Eu matei eles.
Ele parou e olhou para ela. Em um primeiro momento, não entendeu do que ela estava falando. Quando entendeu, preferiu que não tivesse entendido.
— Como assim? – ele disse, em um tom cauteloso.
— Aquele homem. O chefe deles, acho. Ele tentou me agarrar à força. Quando ele tentou tirar minha roupa, eu peguei a faca e pulei em cima dele. A faca atravessou a garganta dele. – ela segurou o próprio pescoço, inconscientemente – Eu tinha medo de que ele viesse pra cima de mim mesmo assim, então esfaqueei ele de novo e de novo, até que ele parasse de se mexer. Aí eu peguei a arma dele e saí do quarto. Os outros estavam na sala. Eu atirei antes que me vissem. Eles atiraram em mim, mas erraram. Quando dei por mim, todos eles estavam mortos, e eu só estava ali, parada, no meio deles. Então eu saí.
Ela não parecia triste ou emocionada ao dizer aquilo, apenas confusa. Bono foi até ela e a abraçou com força contra si. Sentia que estava mais abalado por aquilo do que ela.
— Por que tudo isso acontece comigo? – ela disse – Primeiro eu perco a memória, aí eu descubro que meus pais morreram, e agora isso. Por que isso acontece comigo?
— Vai ficar tudo bem. – ele disse, suavemente, e desejando ardentemente acreditar naquilo – Tudo isso vai passar, e você vai ficar bem. Vai dar tudo certo.
Ela se afastou, colocando a mão no peito dele e o empurrando levemente. Olhou para ele, e havia algo novo em seu olhar, um medo diferente.
— Aquele homem me disse coisas. – ela disse – Ele me disse que eu fugi de casa, e que devia dinheiro a ele. Disse que eu trabalhei para ele como prostituta.
Bono ficou olhando para ela, sem saber o que dizer. Sem saber se a melhor saída era mentir ou contar a verdade, ou simplesmente fingir que não sabia nada sobre aquilo.
— Eu não me lembro de nada. – ela voltou a olhar para a frente, na direção da televisão desligada – Mas você estava do meu lado quando eu acordei. Você veio atrás de mim e me encontrou na estrada. E você me trouxe pra cá. Você não é só o cantor que eu gosto, não é mesmo? Alguma coisa aconteceu, alguma coisa aconteceu comigo, e de alguma forma você sabe, ou... Ou estava por perto, e se envolveu. Você sabe de algo que aconteceu comigo. O que é? – ele se manteve em silêncio, e ela olhou novamente para ele, emoção surgindo em sua voz – O que aquele homem falou é verdade? O que aconteceu comigo? E por que você veio atrás de mim?
Ela estava tão linda. Tão assustada, e tão frágil, e tão absolutamente linda. Ele queria abraça-la e protege-la, e fazer tudo aquilo simplesmente deixar de existir – todos os traumas dela, todas as coisas horríveis, e toda aquela história absurda de que ela talvez fosse sua filha. Fazer tudo desaparecer, até que restassem só os dois ali, nos braços um do outro.
Mas mal ele pensara isso, e ela se levantou do sofá bruscamente. Havia lágrimas em seus olhos quando ela falou:
— Pare de me olhar assim! Pare de me olhar como se tivesse pena de mim! – ela soava com raiva e angustiada – Eu odeio que me olhe assim! Você está escondendo algo de mim, e eu quero saber o que é!
Em apenas mais um segundo, Bono se decidira. A puxou pelo braço, fazendo-a se sentar novamente, e disse:
— Coisas ruins aconteceram com você. E foi por isso que nos conhecemos.
— Que coisas? O que aquele homem disse era verdade?
— Sim. – ela tapou a boca com a mão, seus olhos se encheram de lágrimas, mas Bono apenas continuou – Você fugiu de casa, e pediu ajuda para esse homem. Mas ele era um criminoso, como você viu, e te obrigou a trabalhar para ele como prostituta. Você trabalhou em um bordel durante alguns meses, até fugir.
Iris ficou olhando para ele, em choque. Mas, apesar dos olhos marejados, ela não chorou, nem entrou em desespero. Ficou apenas olhando para Bono.
— Eu não consigo acreditar. – ela disse, após um longo tempo – Isso parece um pesadelo. Não consigo acreditar que tantas coisas absurdas tenham acontecido. Por que eu fugiria de casa? Por que eu pediria ajuda para uma pessoa que nem conheço?
— Eu não sei. Talvez você só estivesse desesperada, e não tenha pensado direito. Tudo o que eu sei é que você estava passando por problemas com seus tios.
— Problemas? Meus tios são as melhores pessoas do mundo. Digo, eles têm seus problemas, mas... Eles têm sido meu apoio desde que esse pesadelo louco começou.
— Bom, você tinha me dito que seus tios te odiavam e que você não suportava mais ficar com eles.
O que? – ela parecia não acreditar – Mas por que... Por que eu diria isso? – ela balançou a cabeça – Quando você fala, parece que está falando de outra pessoa, não de mim. Não me vejo falando ou fazendo nada disso.
— Eu não sei. Talvez tenham acontecido coisas que você não se lembra, coisas que fizeram você... Se tornar uma pessoa um pouco diferente do que era antes. E do que é hoje. A morte dos seus pais talvez tenha te levado a isso.
— Mas... Mas... E você? Onde você entra nisso? Como foi que nos conhecemos?
Ele pensou um pouco. Não queria contar muitos detalhes sobre aquilo. Era melhor lhe contar aos poucos, medir sua reação.
— Nos conhecemos por acaso, quando você ainda era prostituta. Eu te ajudei quando você fugiu, te trouxe comigo de volta para os Estados Unidos.
Ela ficou olhando para ele, esperando que ele dissesse mais, mas ele se calou. Ela insistiu:
— Mas por que você quis me ajudar? E o que... – ela hesitou, como se não soubesse exatamente o que perguntar – Eu quero que você me conte tudo, cada palavra que eu disse, em que situação nos conhecemos, tudo.
— Eu acho que não é uma boa ideia.
Por que? É da minha vida que estamos falando! Eu tenho o direito de saber o que aconteceu comigo!
— Claro que tem, mas... – ele suspirou – Eu não quero que me odeie de novo.
— O que? – o tom de voz dela diminuiu, e ao invés de agressivo, se tornou apenas confuso – Você é o ídolo da minha vida toda. Por que eu te odiaria?
— Porque, Iris, a gente... Eu... – ele suspirou – Durante esse tempo em que nos conhecemos, eu me tornei mais do que... Mais do que um ídolo pra você. Nós... – ele procurava as palavras – Nós nos envolvemos. Romanticamente.
— Que!?
— Nós... – a expressão dela estava fazendo ele se arrepender de ter dito aquilo – Nós tivemos uma espécie de... Relacionamento. Foi por isso que...
— Para. Para tudo. – ela se levantou do sofá e se afastou, apontando para ele de forma acusadora – Você transou comigo? – ele abriu a boca para responder, mas ela o interrompeu – Mas você é casado! E eu, eu... Sim, eu sempre gostei de você, mas eu só tenho quinze anos! Você, justo você... Eu não acredito nisso. – ela se deixou cair na cadeira – Passei minha vida idolatrando um pedófilo.
— Não! – ele se levantou e foi até ela, segurou suas mãos – Não foi assim! Quando eu te conheci, você me disse que tinha dezoito anos. E eu...
— Oh claro, porque dezoito anos é uma super adulta, levando-se em conta que você tem trinta e seis!
— Mas você era prostituta! Eu não tinha nem ideia de quem você era de verdade. Eu... Eu achei que você fosse muito mais madura, muito mais experiente. Me senti péssimo quando descobri a verdade. Eu sinto muito, Íris.
— Sente muito. – ela balançou a cabeça – Você deixou de sair comigo quando descobriu que eu só tinha quinze anos?
— ... Não. Na verdade, foi aí que nosso envolvimento de fato começou.
— Então você não sente muito! Como você pôde? Eu não sei o que aconteceu comigo, não sei quem eu era quando você me conheceu, mas saiba que eu não sou assim. Eu amo você sim, eu passei minha vida sonhando em casar com você... Mas isso não significa que eu ache ok um cara da sua idade...
Ela suspirou, exasperada. Aquela não era a reação que ele esperava, definitivamente. Esperava que ela se emocionasse, que ficasse abalada, talvez que pulasse nos braços dele. Mas não aquela censura, aquela desaprovação. Seria possível que ela tivesse mudado tanto durante aquele período que ela esquecera?
Ou talvez não tenha mudado tanto assim, ele pensou. Lembrou-se do quanto ela hesitara em se relacionar com ele, do quanto se decepcionara ao descobrir que ele contratava prostitutas. Do quanto demorara para ir para a cama com ele. Bono sempre pensara que isso fosse alguma espécie de jogo da parte dela, ou um receio causado pelo trauma de ter sido obrigada a se prostituir, mas talvez não fosse. Talvez ela sempre tenha achado um absurdo se envolver com um homem tão mais velho. Talvez ela só tenha aceitado aquilo porque estava fragilizada demais. E isso tornava o que ele havia feito pior ainda: ele se aproveitara dessa fragilidade dela para torna-la sua amante.
— Eu realmente sinto muito. – ele disse, em voz baixa – Eu me apaixonei por você, e eu sei o quanto isso é errado. Eu devia ter sido responsável, te levado de volta para casa, mas ao invés disso eu só quis te ter comigo, sem me importar com o que era certo ou errado, sem me importar com o que seria bom pra você. E o pior é que eu ainda te amo, Iris. A verdade é que, se você me desse a menor chance, eu ficaria com você de novo. Eu sinto muito.
A expressão de Iris mudou um pouco, suavizou-se. Ela baixou a cabeça, e seu rosto ficou um pouco vermelho.
— Eu gosto muito de você. Não quis dizer que não... Eu só acho errado, porque você é muito mais velho. Eu esperava outra atitude de você.
— Você espera demais de mim. Eu não sou a pessoa perfeita que você pensa que eu sou.
Os dois ficaram algum tempo em silêncio. E então Iris perguntou:
— O que aconteceu no dia do meu acidente? Você estava comigo?
— Não. Nós havíamos tido uma... Briga, naquele dia. Você... Você descobriu que eu tinha outra pessoa. Você me pegou no flagra com essa pessoa, na verdade. E ficou muito chocada e triste, o que é óbvio, e saiu correndo pela rua. Eu não vi para onde você foi. Quando te encontrei, você tinha sido atropelada e estava sendo atendida pela ambulância. Imagino que tenha ficado transtornada e nem viu que estava atravessando a rua.
— Então, você tinha outras amantes além de mim. Eu não era a única.
— Não. – ele ficou vermelho ao se lembrar da situação em que se encontrava quando Iris o vira com Edge – Sinto muito.
Ela apenas balançou a cabeça, parecendo muito triste. Então se levantou.
— Você pode me levar até a delegacia? Eu quero contar para a polícia o que aconteceu ontem, naquela casa.
— Sim. – ele se levantou também – Claro.
— E você pode... Me dar o número do seu telefone?
— Meu telefone?
— Sim. Eu gostaria de... Poder conversar com você, de vez em quando. – ela cruzou os braços, de forma protetora – Mesmo com tudo o que aconteceu, conversar com você faz eu me sentir bem. Talvez... Talvez parte de mim lembre de como era bom ficar ao seu lado. Como era bom gostar de você, e saber que você também gostava de mim.
— ... Iris. – ele tentou abraça-la, mas ela deu um passo para trás.
— Não. Não me toque, por favor.
— ... Desculpe.
— Tudo bem.
Ela foi em direção à porta. Antes de a seguir, Bono foi até a cama e pegou a única bolsa que trouxera consigo. Nesse momento, viu, sobre a cama, a escova que Iris usara naquela manhã para pentear os cabelos. Longos fios negros haviam ficado presos ali. Em um impulso, ele pegou a escova e a guardou num bolso vazio de sua mala, sem que a menina visse. Fechou a bolsa, sentindo o coração bater muito forte, e seguiu Iris para fora do hotel.

terça-feira, 15 de março de 2016

[fanfic #009] [capítulo #006] [U2] Ausência

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AVISOS:

  • História não recomendada para menores (temas adultos)
  • Contém sexo hétero e gay
AUSÊNCIA

CAPÍTULO 6

Iris precisou fazer um enorme esforço para abrir os olhos. Parecia que cada célula do seu corpo doía, e seus músculos se recusavam a obedecer até as ordens mais simples. Demorou para que ela entendesse onde estava. Só via um teto branco, e quando virou o rosto, viu apenas uma janela e móveis desconhecidos.
Só depois de alguns instantes, entendeu que estava em um quarto de hospital.
Aquilo a deixou bem confusa. Por que estava em um hospital? O que estava acontecendo? Nesse momento sentiu alguém tocar sua mão, e uma voz apreensiva a chamou:
— Iris...?
Ela se virou em direção à voz. Era Bono quem estava ali.
— ... Bono? - ela murmurou, e até falar era difícil.
Nada daquilo fazia sentido. Por que o cantor da sua banda preferida estava ali? Ela estava sonhando, era óbvio. Deveria pedir um autógrafo?
Bono, por sua vez, continuava a olhar para ela, apreensivo. Esperara que ela fosse começar a chorar, ou brigar com ele, ou manda-lo embora. Mas ela apenas olhava para ele, com um ar neutro, parecendo um pouco confusa.
— Você está bem? - ele resolveu falar, já que ela não dizia nada - Está sentindo alguma coisa?
Mas ela continuava a olha-lo como se estivesse diante de um alienígena. Olhou ao redor, depois para ele novamente, e por fim disse:
— Isso... Isso é de verdade?
— O que?
— Você... Você é o Bono mesmo? Digo... Do U2, e tals?
Ele ficou parado, olhando para ela.
— Sim. - ele respondeu, por fim.
— Mas... Mas... Como... - ela encostou na mão dele, incrédula - Não é possível, isso é um sonho. Eu estou sonhando, não é? Por que o Bono estaria no meu... - ela olhou em volta novamente - Por que é que eu estou em um hospital?
Bono simplesmente não sabia o que dizer. Os dois ficaram se olhando em silêncio. Ele procurava algum sinal de que ela estivesse fingindo aquilo, mas ela parecia absolutamente sincera.
— Você... - ele disse, por fim - Você não se lembra?
— Do que? - ela começava a ficar preocupada - O que aconteceu?
Mas nessa hora o médico entrou, interrompendo a conversa:
— Você finalmente acordou então. Estávamos aguardando ansiosamente. - ele checou os sinais vitais dela - Foi uma pancada e tanto, mas você vai ficar bem, sem maiores sequelas.
— Pancada? - ela olhou para o médico - Eu caí?
— Você foi atropelada. É normal não se lembrar, por causa do choque.
— Doutor. - Bono disse, e sua voz era pouco acima de um sussurro - Ela não se lembra de nada. Acho que não se lembra de nada dos últimos meses.
O médico olhou para Bono e depois para Iris, dessa vez aparentando preocupação.
— Vamos fazer um pequeno teste. - ele começou a examiná-la - Qual o seu nome completo?
— Iris Anabelle Tyler.
— E quantos anos você tem?
— Catorze.
Bono e o médico trocaram um olhar.
— Em que ano nós estamos? - o médico perguntou.
— Noventa e cinco.
Um ano, Bono pensou. Ela esqueceu de um ano inteiro.
O médico terminou de examiná-la, e sorriu.
— Ok, fisicamente parece que você está ótima. - ele se voltou para Bono - O senhor pode me acompanhar, por favor?
Ele foi em direção à porta, seguido por Bono. Iris o chamou:
— Doutor...
— Sim?
— Onde estão meus pais?
Os dois pararam, e Bono ficou pálido. O médico olhou para Iris.
— Nós estamos tentando localiza-los. - ele disse, e saiu.
— Bono... - ela disse, quando ele estava prestes a sair também. Ele parou e se voltou.
— Sim?
Ela sorriu timidamente.
— Eu sou sua fã desde pequenininha.
Ele sentiu os olhos se encherem de lágrimas.
— Eu sei. - ele disse, e saiu dali o mais rápido possível.

* * * * *

— Como, ela está bem? Ela não está nada bem! Ela voltou um ano no tempo!
— Se acalme, senhor. Isso é muito comum, ela está sofrendo de estresse pós-traumático. O acidente foi a gota d'água em um ano difícil, e o cérebro apagou todas as lembranças desse ano da memória.
— E ela vai recuperar essas memórias?
— Pode voltar a qualquer momento. E pode não voltar nunca. Só com o tempo saberemos.
— Mas ela nem se lembra da morte dos próprios pais! Como que eu vou contar isso pra ela?
— Em algum momento, alguém vai ter que contar. Ela vai acabar sabendo de um jeito ou de outro.
Ele saiu, deixando Bono sozinho com seu desespero.

* * * * *

— Perdeu a memória? - disse Edge, incrédulo - Como assim, perdeu a memória?
— Exatamente isso. Ela não se lembra de nada do último ano. Não se lembra nem que os pais estão mortos. Sua memória parou em algum momento antes disso.
— Ela não se lembra de ter sido prostituta? Não se lembra de você?
— Não. Ela quase chorou quando me viu do lado dela. Disse que era minha fã desde pequenininha.
Edge sentia-se tonto.
— Meu deus... Mas... Mas isso é uma coisa boa, não? Digo, o último ano realmente foi horrível... Ela não precisa saber que trabalhou em um bordel, certo? E ela não lembra sobre... Nós.
— Ela não lembra de muito mais do que isso. Ela não lembra de... De mim. - ele estava muito emocionado - De tudo. Digo, ela passou por coisas horríveis, mas... Mas nós vivemos coisas juntos. E por pior que seja, eu... Eu não quero que ela esqueça os momentos que vivemos juntos.
— Você está sendo egoísta e burro. Deveria dar graças a deus por ela não se lembrar do que viu naquele quarto. Tem ideia da quantidade de problemas que teríamos se isso viesse a público? Além disso, você quer que ela se lembre de todo o inferno que vem vivendo, apenas para poder compartilhar memórias românticas com você? Aliás, memórias essas que ela provavelmente ia querer apagar por vontade própria depois do que viu.
— Eu sei disso. - ele balançou a cabeça - Eu sei que não devia querer que ela recuperasse essas memórias nunca mais. Mas... - ele hesitou - Acho que a única coisa pior do que ser odiado é ser esquecido.
Edge colocou a mão em seu ombro, carinhosamente.
— Você pode conquista-la de novo. Aliás, nem precisa conquista-la, ela sempre esteve esperando por você. Essa pode ser sua segunda chance.
— Que segunda chance, Edge? - ele se afastou, e agora havia um tom de irritação em sua voz - Agora ela é uma criança de catorze anos virgem. Se eu tentar dar um beijo nela, ela vai surtar! Vou demorar décadas para conseguir me aproximar dela novamente. Ela não é mais a ex-prostituta, é só uma criança com pôsteres do U2 no quarto.
Nesse momento, um casal entrou na sala de espera. Assim que viram Bono e Edge, os dois pararam, incrédulos.
— Vocês! Vocês são os caras daquela banda de rock!
Bono e Edge trocaram um olhar.
— Sim? - disse Edge.
— Quem são vocês? - disse Bono, pois a única pessoa internada naquele andar era Iris.
— Nós recebemos uma ligação do hospital. - disse a mulher - Nossa sobrinha está internada aqui. O que vocês fazem aqui?
— Sobrinha? Vocês são os tios da Iris?
— Você conhece a Iris? - disse o homem - Nossa sobrinha estava desaparecida há quase um ano. Como vocês conhecem ela? Sabem onde ela esteve esse tempo todo?
— Nós, digo... - disse Bono, tentando pensar em algo coerente para dizer - Não, eu não a conhecia, nós apenas...
— Eu entendo. - disse a mulher - Eu esperava que isso fosse acontecer.
Bono e Edge se olharam, confusos.
— Esperava...?
A mulher deu um passo a frente.
— Eu sabia o tempo todo. Eu te disse, James. - ela olhou para o marido, e então para Bono - Então era verdade. Eu sempre disse que era óbvio, esse tempo todo!
— Mary... - disse James - Por favor... Ele não...
— Ora, James, é claro que ele sabe. - ela apontou acusadoramente para Bono - Há quanto tempo você soube? Foi a Iris que contou? Ela também sabia o tempo todo? Ou foi você que foi atrás dela? - ela se aproximou até quase encostar nele, olhando em seus olhos - Não me diga que você sabia desde o início e nunca fez nada, nunca tomou uma providência!
— Minha senhora - Bono tinha recuado involuntariamente - eu não tenho a menor ideia do que você está falando.
— Ah, não tem? É claro que tem! Por que outro motivo estaria aqui, se não fosse porque sabe da história toda?
— Que história?
— Mary. - James interrompeu - Olhe para ele. Ele não sabe. E você nem tem certeza disso, eu já disse que isso é coisa...
Isso não é coisa da minha cabeça! Olhe para ele! Olhe a semelhança!
James olhou para Bono, parecendo muito constrangido. Edge disse, refletindo os pensamentos de Bono:
— Meu senhor...
— Harris.
— Senhor Harris, do que a senhora sua esposa está falando?
— Por que vocês estão aqui, primeiramente?
— Nós encontramos a Iris recentemente. - disse Bono depressa - Depois de um show. Ela disse que tinha fugido de casa, parecia perdida. Nós deixamos ela ficar com a equipe por uns dias. Então ela sofreu esse acidente e viemos vê-la, ficamos preocupados.
— Entendo...
— Eu não acredito nisso nem por um momento. - disse Mary, parecendo furiosa.
— Meu amor...
— Não seria uma coincidência extrema? Ora, vamos. Eu sei muito bem porquê você está tão preocupado com a Iris.
Bono resolveu assumir a defensiva:
— Senhora Harris, do que, exatamente, a senhora está me acusando?
— O senhor sabe muito bem. Aposto que sabia desde o início.
— Sabia do que?
— Ora, do que. - ela fez uma pausa, e quando falou, sua voz tinha um tom de triunfo - A Iris é sua filha.

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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

[fanfic #009] [capítulo #005] [U2] Ausência

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Avisos:

  • História não recomendada para menores (temas adultos)
  • Contém sexo hétero e gay

AUSÊNCIA

CAPÍTULO 5

Um mês depois

Quando Bono entrou no quarto, Iris estava olhando pela janela para a rua lá fora. Era uma bela manhã, e o sol brilhava. Ele foi até ela e a abraçou.
— O que está olhando?
— Só vendo a cidade. – ela tocou no rosto dele, sorrindo – Eu queria ir passear hoje.
— Hoje eu não posso ir com você, tenho ensaio daqui a pouco. Mas você pode ir com as meninas da equipe.
— Poxa. – ela fez uma carinha triste, e segurou a mão dele – Queria ficar com você.
Ele sorriu. Adorava aquele jeito dela, de garotinha frágil e inocente. Nos últimos dias, eles vinham andando sempre juntos, e ele sabia que ela estava complemente apaixonada por ele. Sabia que podia fazer o que quisesse com ela. Ela era dele. Sua pequena e deliciosa criança.
— Eu também queria muito ficar com você. – ele a abraçou – Mas se as pessoas continuarem a nos ver sempre juntos, vão começar a suspeitar. Quero evitar comentários sobre nós. Por isso, hoje eu vou ensaiar com a banda, e você vai passear com suas amigas. Vá fazer umas compras, vai ser bom pra te distrair.
— E não vamos nos ver hoje?
— Só à noite, quando voltarmos pra cá. Mas não se preocupe. – ele deu uma mordidinha no pescoço dela – Prometo que de noite eu compenso o dia inteiro.
Ela sorriu, sentindo um arrepio. Os dois se beijaram, e quando Bono começava a subir a mão por dentro da blusa dela, o telefone tocou. Ele parou, com um suspiro, e foi atender, xingando mentalmente quem quer que fosse.
Era Paul McGuinness no telefone, dizendo que os outros estavam a caminho do estúdio. Bono disse que já estava indo, e se voltou para Iris:
— Tenho que ir, meu amor. Estão esperando por mim.
— Tá bom...
— Vai lá se divertir. Leve o celular, qualquer coisa me liga.
— Tá.

* * * * *

No meio do ensaio Larry não se sentiu bem, e eles acabaram terminando bem mais cedo. Quando se preparavam para ir embora, Adam foi até Bono, dizendo:
— Bono, podemos conversar um minuto?
— Até dois, se você quiser. – Bono se apoiou no carro e acendeu um cigarro – Fala.
— É sobre a Iris.
— O que tem ela?
— Você sabe o que tem. – ele se apoiou no carro e ficou um tempo em silêncio, parecendo estar procurando as palavras – Tem certeza do que está fazendo?
— O que quer dizer?
— Você tem certeza de que quer assumir o risco de ser amante de uma menina de quinze anos?
Bono olhou para ele, sério, e não respondeu. Após um momento, Adam disse:
— Eu sei que isso é problema seu. Mas se isso cair na imprensa, Bono... Você tem que pensar na imagem da banda, e na sua imagem. Tem muita coisa em jogo nessa história.
— Ninguém vai saber de nada. Estou tomando todas as precauções.
— Não tem como tomar todas as precauções. Você sabe como esse povo da imprensa é. Além disso... – ele hesitou – Olha o que você está fazendo. A Iris é uma garotinha.
— Uma garotinha que já foi prostituta.
— Não interessa. Olha pra ela! Eu também gosto de menininhas, mas ela... Ela parece mesmo uma criança. E ela só tem quinze anos, fugiu de casa... Você devia ter levado ela de volta pros tios dela, e não pegado ela pra você como se fosse um cachorrinho que você encontra na rua e dá abrigo.
— Não fala besteiras! Eu não trato ela dessa forma!
— Não? Você “adotou” uma menina órfã e sustenta ela em troca de sexo. Não importa como você realmente a vê, pra qualquer um que olhe de fora, ela é sua prostituta particular. Eu nem sei mais quantos crimes você está cometendo. As consequências disso podem ser muito mais do que uma mancha na sua imaculada imagem, Bono. Você pode ser preso. Pode perder sua esposa e até ser proibido de ver suas filhas. E tudo pra que? Pra transar com uma bonequinha com cara de bebê?
Ao invés de continuar discutindo, Bono simplesmente lhe deu as costas e entrou no carro. Adam suspirou, resignado.
— Ok, eu já disse o que tinha que dizer. Faça o que quiser, majestade.
Bono apenas olhou para ele de forma fria. Em seguida ligou o carro e foi embora, deixando Adam sozinho.

* * * * *

Mal Bono chegara no quarto, e seu telefone tocou. Era Iris.
— Oi, meu anjo.
Oi Bono! Só queria avisar que vou chegar só depois das onze, eu e as meninas vamos no cinema e depois vamos passar em um parque de diversões.
— Tudo bem, pode ir. Divirta-se.
Ela desligou. Bono estava um pouco desanimado por causa da discussão com Adam, e saber que Iris ainda demoraria horas para voltar o deixou mais deprimido ainda. Estava pensando se deveria ligar para algum dos seus amigos e sair para beber – embora não estivesse com nenhuma vontade de fazer isso – quando o telefone tocou novamente. Ele atendeu:
— Alô.
Oi Bono, há quanto tempo.
— Edge. – Bono riu – Nós nos vimos há duas horas.
Pra mim parecem séculos. Você está ocupado?
— Não, estou à toa aqui.
E a Iris está aí?
— Não, ela saiu com umas amigas. Disse que só volta depois das onze da noite.
Então, você vai ficar aí sozinho esse tempo todo? Pobrezinho...
Bono riu.
— Pois é, estou tão solitário aqui...
Se você quiser, eu posso te dar a honra da minha companhia.
— Será um prazer.

* * * * *

Bono abriu a porta. Edge o olhava, com um sorriso nos olhos.
— Oi. – Bono disse, sorrindo, e Edge permaneceu em silêncio, apenas olhando intensamente para ele – Entra.
Ele entrou, e Bono fechou a porta.
— Acho que é a primeira vez em semanas que você fica mais do que meia hora sem a Iris. – disse Edge, andando pelo quarto.
— Acho que sim. – Bono se aproximou dele, e segurou sua mão, em um movimento lento e delicado – Eu senti sua falta.
Edge sorriu, mas disse:
— Sentiu por quê? Você tem a sua menininha com você.
— É, eu tenho. Mas, sabe... – ele chegou mais perto – Ela não pode me dar tudo o que eu preciso.
— É mesmo? – Edge mexeu nos cabelos dele, de leve – E do que você precisa?
Bono riu, ficando um pouco vermelho pela forma como Edge olhava para ele. Mas então se afastou e foi até o bar do quarto, onde encheu dois copos com uísque.
— Eu nunca te agradeci por ter me ajudado com a Iris. – ele entregou um copo para Edge – Se não fosse por você, acho que eu não teria transado com ela até hoje.
— Não precisa agradecer. – Edge aceitou o copo que Bono lhe oferecia, e bebeu – Eu sabia o quanto você queria ela, e você sabe que eu faço qualquer coisa por você.
— Sei sim.
— Como vocês estão?
— Estamos ótimos. – Bono foi até a cama e se sentou – Ela é incrível, Edge. Eu achei que depois de transar com ela, eu fosse me cansar rápido, mas... Parece que quanto mais eu a tenho, mais eu quero ficar com ela. – ele olhou para o líquido em seu copo, e sorriu – E ela é fantástica na cama. Acho que agora ela é ainda melhor do que quando era prostituta. – os olhos de Bono brilharam – Sério, eu não esperava que fosse ser tão bom. Ela é tão intensa, tão apaixonada... Se entrega tão completamente... Ela é fantástica. – ele segurou a mão de Edge – E eu tenho que te agradecer por isso. Por ter convencido ela. Você salvou minha vida.
— Nossa Bono – Edge riu – que exagero.
— Não, não é. Estou falando sério. Você não tem ideia do quanto significou pra mim.
Os dois se olharam. Ambos já haviam terminado de beber; Edge pegou o copo da mão de Bono e o deixou sobre a mesa. Bono se deitou, com um suspiro feliz, e disse:
— Mas e você? Nós só temos nos vistos nos ensaios... Aliás, eu não vejo mais ninguém além da Iris. Como você está?
— Estou bem. Trabalhando muito.
— Não tem se sentido sozinho?
— É, talvez, um pouco. – ele se apoiou no armário e ficou olhando para Bono, com um sorriso suave – Talvez eu também tenha encontrado companhia.
— É mesmo? – Bono se ergueu um pouco, e tentou não demonstrar nenhum receio em sua voz – Quem?
— Não sei. – Edge deu de ombros – Talvez alguma fã tenha entrado escondida no meu quarto. Talvez eu tenha decidido não expulsar ela dessa vez. Talvez eu tenha me sentido muito sozinho, e aceitado alguma outra companhia, porque meu melhor amigo está apaixonado e não me dá mais atenção.
— Que drama. – os dois riram – Mas você não está saindo com ninguém... Está?
— E se estiver? Não posso?
— Bom, pode... Digo, claro que pode, por que não poderia? – ele ficou um pouco vermelho – É só que eu, hum... Eu não esperava que você estivesse saindo com alguém.
Edge ficou um momento em silêncio, apenas olhando para ele; e então foi até a cama e se deitou ao seu lado. Os dois ficaram algum tempo se olhando, e Edge tocou no rosto de Bono suavemente, com as pontas dos dedos.
— Não estou saindo com ninguém. – ele deixava os dedos percorrerem lentamente os contornos do rosto de Bono, seus olhos, seu queixo – Como poderia? Com você do meu lado todos os dias, como eu poderia querer sair com outra pessoa? – ele se aproximou mais, seus dedos se detendo sobre os lábios de Bono, acariciando-os suavemente – Como alguém poderia se satisfazer com outra pessoa, depois de ter conhecido você?
Bono abriu a boca para falar, mas Edge tocou seus lábios com os dedos, em um sinal para que ele se calasse. Os dois ficaram se olhando por mais algum tempo; até que Edge se aproximou, lentamente, e os lábios de ambos se encontraram em um beijo calmo. Bono abriu a boca, permitindo que suas línguas se tocassem. Edge dominava o beijo, provando Bono de forma lenta, profunda.
Quando se afastaram, ficaram os dois se olhando por um tempo, até que Bono disse, num tom tão baixo que era quase um sussurro:
— Você sabe que... – ele tocou o rosto de Edge – Não importa o que eu esteja sentindo pela Iris, ou o que eu sinta por qualquer outra pessoa... Ninguém nunca vai substituir você. Ninguém nunca vai ser tão especial pra mim quanto você é.
— Eu sei.
— Eu te amo.
— Eu também te amo.
Eles se beijaram de novo, demoradamente, com a mesma calma de antes.
— Eu sinto sua falta. – Bono murmurou, quando eles se afastaram.
— Eu também. – Edge lhe deu mais um beijo – Eu te quero muito.
— Eu preciso de você.
— Eu também preciso de você.
Os dois se beijaram de novo, dessa vez de forma mais forte, mais intensa. Edge tocava nos cabelos de Bono, enquanto Bono descia as mãos por suas costas, devagar. Bono tirou a camisa de Edge, e em seguida a sua própria. Os dois foram tirando a roupa um do outro, lentamente, em meio a beijos.
— Então... – Edge disse, quando ambos já estavam nus, e Bono beijava seu pescoço e passava a mão por ele avidamente – Você tinha dito que a Iris não tem como te dar tudo o que você precisa?
Bono riu.
— Sim.
— E o que você quer que ela não pode fazer?
— Uma coisa que só você faz por mim. – ele foi descendo pelo corpo de Edge, beijando cada parte – Uma coisa que eu gosto muito.
— E o que seria?
— Hum...
Bono desceu mais, e foi beija-lo onde Edge queria que ele beijasse. Edge sorriu, e ficou mexendo nos cabelos de Bono enquanto ele fazia aquilo.
— Você gosta de fazer isso pra mim?
— Se gosto? – Bono parou por um momento e riu – Eu seria capaz de ficar horas fazendo isso.
— Eu não garanto que consigo segurar um orgasmo durante horas, mas vou fazer o possível.
— Não precisa. – Bono deu um último beijo nele – Eu amo chupar você, mas tem uma coisa que eu quero muito mais.
— Hum... E que coisa seria essa?
Bono o beijou na boca, um beijo lento e demorado.
— Você quer dar pra mim? – Bono disse, olhando nos olhos de Edge.
— Eu estava esperando você pedir. – Edge riu e puxou Bono para o seu colo, o prendendo em mais um longo beijo – Já faz mais de um mês que estou doido pra fazer isso.
— Você sente falta?
— Tanta falta que acho que vou morrer se não fizer.
— E você vai deixar outra pessoa fazer isso?
— Não. Nunca. – ele deu mais um beijo em Bono – Você é o único.
— Bom menino.

* * * * *

Uma brisa suave balançava as cortinas levemente. Um sol alaranjado jogava seus últimos raios sobre a cama. Bono suspirou ao sentir o calor morno em sua pele, e fechou os olhos. Edge o abraçou, beijando suas costas e seu pescoço. Bono sorriu e mexeu nos cabelos dele.
— Bono... – Edge sussurrou, com os lábios encostados no ouvido de Bono, e este sentiu arrepios.
— Quer mais?
— Sim. Eu preciso. – ele se encostou a Bono, mostrando o quanto ele precisava – Preciso muito.
Bono se virou para ele. Já tinha descansado o suficiente, mas sabia que de noite Iris iria procura-lo, por isso tinha que se guardar um pouco.
— Eu estou cansado.
Mas Edge o beijou com tal paixão que qualquer pensamento sobre resistir desapareceu rapidamente da cabeça de Bono. As coisas foram um pouco mais lentas dessa vez; e após algum tempo, Bono parou.
— Espera. – ele se sentou e ficou olhando para Edge, que estava nu e ofegante, de joelhos sobre a cama – Eu quero dar pra você.
Edge sorriu.
— Seu pedido é uma ordem.
Bono o puxou novamente para si, em um beijo forte, quase desesperado, e os dois se perderam um no outro.

* * * * *

Edge estava deitado, segurando os quadris de Bono, que estava sentado sobre ele, subindo e descendo lentamente. Eles olhavam nos olhos um do outro; Bono aumentou a velocidade, e sorriu quando Edge fechou os olhos e deixou a cabeça pender para trás.
— Você gosta disso? – Bono disse.
Demorou alguns segundos para que Edge conseguisse responder.
— Sim.
— Olha pra mim.
Com algum esforço, Edge manteve os olhos abertos e olhou para Bono, verde em azul.
— Seus olhos. – ele tocou no rosto de Bono – São tão bonitos.
Bono sorriu. Inclinou-se sobre ele e o beijou, demoradamente. Seu ritmo diminuiu um pouco, para que ele pudesse apreciar melhor o beijo.
— Eu te amo. – ele disse, tocando no rosto de Edge.
— Eu também te amo.
Edge moveu os quadris, exigindo um ritmo mais forte, e Bono o atendeu. Os dois olhavam nos olhos um do outro, e aumentavam a velocidade, entre gemidos e beijos; e de repente, o barulho de coisas caindo no chão fez os dois pararem e olharem para a porta do quarto. Iris estava ali, olhando para eles, petrificada. Aos seus pés, algumas sacolas de compras que ela derrubara.
Bono saiu depressa de cima de Edge e puxou um lençol sobre eles, tentando se cobrir. Os três ficaram se olhando durante um tempo que pareceu uma eternidade; e então Iris saiu correndo para fora do quarto. Bono e Edge ainda ficaram alguns segundos inertes, incapazes de raciocinar o suficiente para se moverem; até que Bono finalmente saiu daquele estado de choque, e se levantou depressa, correndo para a porta.
— Iris! – ele a chamou, saindo nu para o corredor, que por pura sorte estava vazio – Iris!
Mas ela já se fora. Ele correu de volta para o quarto e se vestiu em segundos. Edge também se vestia, e disse:
— Bono, espera, nós...
Mas Bono já correra para a rua. Não havia nem sinal de Iris; o segurança do hotel só soube informar que ela passara correndo, mas não vira para onde ela fora. Quando Edge se juntou a ele, Bono estava apoiado em um poste, com lágrimas caindo pelo rosto, e com uma expressão de total desespero.
— Pra onde ela foi?
— Não sei! Ela sumiu, ela... – ele soluçava – Ela...
— Calma, Bono. – Edge o sacudiu de leve – Calma. Vamos encontra-la e vamos conversar com ela, ok? Vamos resolver isso de algum jeito.
— Que jeito? Ela viu a gente! Ela viu...
— Eu sei! – ele abraçou Bono – Eu sei. Mas precisamos primeiro encontrar ela, e depois veremos o que fazer.

* * * * *

Iris corria pelas ruas, sem ter a menor ideia de para aonde estava indo. Andava de tal forma que era um milagre que não tivesse sido atropelada. As pessoas ficavam olhando para aquela menina que corria, aos prantos, mas Iris não se importava; só queria fugir, ir embora, esquecer aquela cena que parecia ter sido gravada a fogo em sua mente.
Edge e Bono.
Ela teve que parar e se apoiar em um poste, pois estava totalmente esgotada. Suas pernas tremiam e sua barriga doía, e respirar era doloroso. Edge e Bono. Tentava não se lembrar da cena, mas quanto mais tentava, mais vívida a lembrança parecia: os dois aos beijos, trocando juras de amor... Bono em cima de Edge, esfregando-se nele, os gemidos dos dois preenchendo todo o quarto... Edge dentro de Bono...
Iris começou a rir histericamente. Eles são gays. Ótimo. Eles são gays. E na noite anterior, Bono a beijara, tocara nela, com as mesmas mãos com que agora...
Pensar nisso fez ela se sentir muito enjoada, e ela se inclinou para a beira da calçada e vomitou. Bono tocara nela com as mesmas mãos que tocara em Edge, a beijara com a mesma boca que...
Ela vomitou de novo, e caiu de joelhos. Algumas pessoas foram até ela, oferecendo ajuda, mas ela apenas balançou a cabeça e fez um gesto para que se afastassem. Com algum esforço, conseguiu se levantar e saiu andando.
Ele mentiu pra mim. Os dois mentiram. Esse tempo todo. Ela lembrou-se de quando era pequena e ficava assistindo aos shows pela televisão, ao lado de seus pais. Sua mãe era completamente apaixonada pela banda, completamente apaixonada por Bono; Iris herdara dela esse amor. Como ela se sentiria se soubesse que...
Uma buzina. Foi tudo o que ela escutou, no momento em que percebeu que atravessara a avenida sem olhar ao redor. E no instante seguinte tudo sumiu.