terça-feira, 9 de junho de 2009

[conto #012] O Desafio

O DESAFIO

As duas têm doze anos, um metro e setenta, e nenhum juízo.
-- Eu duvido que Deus exista!
-- Claro que existe!
-- Duvido! Cadê a prova?
-- Tá na Bíblia.
-- E como eu sei que o que tá na bíblia é verdade? E se for tudo mentira?
-- Mamãe disse que é verdade.
-- Sua mãe não sabe nada.
-- Sabe sim!
-- Não sabe nada.
Vão andando pela rua, discutindo. Falam tão alto que qualquer um ao redor pode ouvir.
-- Eu acho que Deus não existe. Que isso tudo que contam pra gente é tudo mentira.
-- E por que iam mentir desse jeito pra gente?
-- Pra fazer a gente obedecer eles! Eles dizem, se você desobedecer sua mãe Deus castiga, se você matar alguém, Deus castiga. Pra mim isso tudo é besteira!
-- Não fala isso, depois Deus escuta e castiga você.
-- Castiga nada, porque Deus não existe!
-- Existe sim!
-- Vou provar que não existe!
-- Provar como?
Ela se arrepende de ter perguntado. A outra para decidida. Olha para cima, para o céu nublado.
-- Deus! - ela grita, para as nuvens, o mais alto que consegue - Se você existe, então prova!
Algumas pessoas chegam a parar para olhar a cena. A outra quer ir embora o mais depressa possível.
-- Amiga, para com isso, tá todo mundo olhando...
-- Anda, Deus! - ela continua gritando - Se você existe, se tem tantos poderes, então me dá uma prova! Faz cair um raio aqui, faz chover, faz alguma coisa!
-- Amiga...
-- O que é, tá dormindo? Aloooo, Deus? - ela para de gritar - Viu, cadê? Deus não existe.
Houve-se um trovão ao longe. As duas olham para cima. O céu está ficando escuro.
-- Acho que vai chover.
-- Viu? É Deus! Deus está te dando uma prova!
-- Não é nada! Grande coisa, chover. Tinha que ser uma coisa extraordinária para...
Um clarão e um estrondo, anunciando que um raio caiu bem mais perto do que antes. Começa a ventar. A atmosfera fica pesada. Faz frio.
-- Oi, Deus! - ela grita de novo - Eu não acredito em você! Não acredito!
O vento aumenta mais ainda, relâmpagos cortam o céu, começa a chover, um som fantasmagórico é ouvido. As duas gritam e saem correndo. Chegam em casa ensopadas, e ficam olhando, da varanda, a tempestade que cai. Parece que o mundo esta desabando.
-- Eu disse pra você não provocar.
-- Cala a boca.
-- Foi Deus.
Ela cruza os braços, brava.
-- Não foi nada.
-- Ele ficou com raiva de você.
-- Dane-se. To nem aí. Não acredito nele mesmo.
-- Mas ele acredita em você.
-- É. - ela sorri - Eu sou melhor do que ele. Eu não tenho que provar que existo, ele é que tem.
-- Chega. Daqui a pouco ele traz um furacão e leva sua casa embora.
-- Leva nada.


SOBRE A HISTÓRIA

Por incrível que pareça, essa história foi baseada em fatos reais. A menina doida que fica gritando para ver se Deus existe sou eu, e eu fiz mesmo isso, quando tinha uns onze ou doze anos. As consequências foram realmente as que eu descrevo. Lembrando essas coisas agora, não sei se rio ou se me envergonho.